Lêda Therezinha Fialho

Patrimônio cultural de Maragogi

Thereza e seu inseparável amigo, Alexsandre Borges.
Lêda Therezinha, ou simplesmente Thereza, era mineira, de Belo Horizonte. Percebia-se pelo sotaque carregado, no seu tom estridente ao falar. Mas desde cedo meio nômade. De lugar nenhum. Do mundo. Veio parar em Maragogi depois de uma boa temporada em Recife, no barra pesada do famigerado edifício Holiday, coração de Boa Viagem.
 
Mas foi aqui que ela certamente encontrou o melhor abrigo, os melhores amigos. Não seria exagero dizer que foi em Maragogi que ela achou a si mesma. E adotou esta cidade como sua terra de coração.    
 
Profissionalmente, Tereza foi professora de arte e filosofia. Era o que lhe garantia o sustento. Mas foi como agitadora cultural da pequena Maragogi que ela se destacou. Deu uma sacudida na cultura nativa. Foi dela o projeto que conseguiu verba para o Samba Matuto, seu maior orgulho. Até hoje, Zezé do Quita, a porta-bandeira do samba, fala dela com carinho.  

Cordelista, amava os livros, gostava de ler e incentivava o hábito da leitura. Esse amor aos livros lhe rendeu o posto de encarregada da Biblioteca Pública Municipal Doutor José Luis Beltrão Mavignier, que desapareceu sem deixar endereço da Praça Batista Acioli.
 
Quem não lembra dos varais nas praças ou na orla com poemas impressos em folhas de ofício no Dia da Poesia? Nem que aparecesse só uns gatos pingados. Não importava. Ela estava lá, o dia todo, enaltecendo a poesia, a literatura.
 
Para os amigos mais íntimos, revelava-se sensível e emotiva, afinal era artista. Chorava fácil por qualquer motivo. De felicidade, de tristeza. Por conquistas e êxitos. Quando sofria frustrações.
 
Mas, guerreira, nunca desistiu de lutar pelos seus ideais, as diversas manifestações culturais, tão desprezadas pelos gestores públicos deste país. Mente aberta, não tinha preconceito com nada nem ninguém. Despudorada, livre, não mantinha laços amorosos. Meio polêmica, brigava e, apenas com gestos, pedia perdão.
 
Thereza era diferente — e a esses seres que fogem à regra, não se enquadram em nenhuma categoria dos estereótipos impostos e facilmente deglutidos pelo sistema, é reservado um lugar à margem, nunca o centro. Talvez por não haver espaço para tamanha inteligência num mundo banal e medíocre, eles classificam o incompreensível de incoerente, de anormal. Quando não vão mais longe e lançam termos pejorativos, degradantes, como se atirassem pedras para ferir, aniquilar.
 
Tinha aquela expressão meio alienada, de quem não está nem aí e estando. Em todos os lugares, em todos os sentidos. A linha entre o excesso de lucidez e a loucura é muito tênue, dizem os filósofos, os cientistas. Tem que haver um controle mental permanente, uma eterna vigilância. É preciso, portanto, fingir. E de vez em quando apagar a luz que ilumina a absoluta consciência de todos os males. Fechar as portas e fugir. Adentrar então um mundo encantado. Fazer de conta que o bem triunfa no final. Brincar, imaginar, sorrir, gozar. E dessa maneira despistar a loucura.
 
Na memória dos amigos, ela vai se perpetuar como uma personagem fictícia que criou vida e veio participar do mundo real conosco. Por essa razão, ela ainda existe. Apenas acabamos de ler sua história, fechamos o livro e guardamos para sempre todas as imagens na mente.
 
Em vida, Thereza ganhou um personagem inspirado nela. A Leleia Fialho — seu sobrenome artístico — do conto Vapor Barato, que deu título ao meu livro de estreia. Uma vez eu disse para ela, que riu. Se ela tivesse sido tão “igual”, jamais seria fonte inspiradora ou merecedora de qualquer homenagem.
 
Mesmo sem ser a Batista, personagem homônimo protagonista do romance de Jorge Amado, Thereza jamais se cansou da guerra. Só não conseguiu vencer a selvageria urbana e a covardia humana.
 
Morreu onde nasceu, em Minas, junto dos seus. Depois de um absurdo atropelamento no Rio de Janeiro.

Mais notícias

Comentários

Carregando

Assine nossa newsletter e
receba as principais notícias por e-mail

Siga o Maragogi News nas redes sociais