Maragogi é feia

Tem rostinho bonito e corpo feio

Vista aérea do centro de Maragogi. (Foto: Sérgio Ricardo). 

Mesmo não residindo em Maragogi, mas sendo um visitante habitual, pois desde o final de 1970 frequento aquela praia com assiduidade – quando tive a felicidade de conhecer essa cidade ímpar no nosso imenso Brasil –, tenho observado como a cidade está feia. Já repararam? Maragogi tem rostinho bonito e corpo feio. Igual modelo fotográfico que estampa o rosto num grande outdoor – e esconde o corpo. Um modelo que vende apenas a cara. Trabalha com a cara, com a melhor imagem. Porque o corpo é feio.
 
Assim é a cidade de Maragogi. A imagem do seu rosto – praias e piscinas naturais – nos folders e banners impressiona, é magnífica. Mas o resto é feio. A cidade é feia.
 
As ruas de Maragogi são feias. As entradas de acesso (com exceção da Praça dos Cabanos) são feias. As praças são feias. O centro é feio. A orla é feia.
 
As calçadas são assassinas. Os morros têm tendência suicida. A praia é uma bagunça. A água do mar tem resíduo fecal. Há bueiros criminosos.
 
Por essa razão, muitos turistas (os verdadeiros, não os que vêm compartilhar da bagunça) saem com má impressão e falam mal da cidade nas redes sociais. Aqueles que não são trazidos pelas agências de viagem, na calada da noite, com venda nos olhos, e despejados já dentro de um resort ou pousada de luxo. E no dia seguinte são diretamente remetidos às piscinas naturais.
 
Os que se livram da venda, avistam os problemas estruturais gritantes. Os que guardam os fones de ouvido são incomodados por poluição sonora nos quatro cantos. Os que ousam caminhar, seja pela cidade, orla ou praia, a qualquer hora do dia, correm o risco de ser assaltados.
 
Turista que vem conhecer a cidade através dos folders e a conhece apenas o que é mostrado neles, sai deslumbrado. Mas, se são “soltos” na cidade, vão embora desencantado – alguns, horrorizados, assustados. Feito o cliente que conhece a prostitua numa agência ou numa página virtual apenas pelo rosto... e paga antecipadamente. Aí se ferra quando conhece o “produto” na íntegra. Quando desnuda o corpo. Cadê o resto da beleza física pré-anunciada, sugerida, vislumbrada no outdoor? O jeito é contentar-se com sexo oral. Aproveitar-se da cara. Usufruir das piscinas e de algumas praias, e ir embora. Nada mais a fazer.  
 
Olhando por esse prisma, Maragogi não precisa de mais nenhum tipo de marketing caro e vulgar. Apelando para os mesmos cenários, usando a mesma linguagem. Torna-se repetitivo, cansativo. Essas imagens paradisíacas já são conhecidas ao redor do planeta. O que é bonito em Maragogi o mundo todo já conhece. Maragogi, há décadas, faz parte da rota do turismo internacional. O gasto com esse tipo de publicidade bem que poderia ser investido no coração da cidade. E no fígado. No estômago. No pâncreas. Parece servir apenas para acalmar o setor e satisfazer a corporativismo de turismo.
 
Maragogi, com muita sorte e jogo de cintura, sobrevive do rosto. E cobra-se caro para desfrutar dele. Mas, até quando? E quando esse rosto for deteriorado? Criar profundas rugas, cair os dentes, murchar os lábios? Quando continuar com a mesma quantidade de coliformes fecais nas águas verdejantes? Quando depredarem totalmente as piscinas naturais? De que sobreviverá o turismo de Maragogi? Ou o próprio Maragogi (município)?
 
Maragogi é uma cidade enferma. Precisa de tratamento. Necessita de três médicos. Um cancerígeno, para extirpar as células doentes e contagiosas. Um cirurgião plástico, para lhe dar nova aparência. E um psiquiatra, para curar a mente dos que acham que tudo pode e a dos que tudo permite.
 
Maragogi precisa mudar de dentro para fora. Cuidar de suas mazelas internas. Para então pensar em correr atrás de um título honesto, original e digno.  Esse é o maior marketing que Maragogi pode fazer de si mesmo: cuidar-se. Tratar de suas chagas, físicas e existenciais. Sim, existenciais. Parar de achar que é estrela. Não é. 
 
A cidade carece de bons cirurgiões. Os que estudam por vocação e trabalham, acima de tudo, por amor ao município. Somente esses poderão operar o milagre.
 
Mas a decadência física e social expressa bem a decadência moral de seus filhos. Na sua maneira de querer impor as próprias regras, a própria lei. Sempre em benefício próprio, claro. De onde você tirou a ideia de que brigam por algo coletivo? Nunca compre essas brigas públicas. Antes, analise. Tente ver “o além”, o “detrás”. Não há santos no Paraíso. Quem lhe disse isso?
 
O caso está tão absurdo que não mais permitem que o Poder Público, seja na esfera municipal, estadual ou federal, intervenha em seus “negócios”.  
 
Voltando ao turista. O mais exigente, igual o cliente ludibriado, que não se satisfaz apenas com sexo oral, vai embora sem gozar. Portando, insatisfeito. E cliente insatisfeito é chato, é muito chato. Quando menos, reclama no Procon.  
 
Maragogi só tem o rosto de santa. O corpo é de puta. De puta velha. Um corpo que sempre se prostituiu e hoje encara a dura realidade: a decadência.

*Turista 

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