Maragogi 40 Graus

Quem são os donos de Maragogi?



Escuto a música da Fernanda Abreu, Rio 40 Graus, e fico pensando em Maragogi. Né que umas frases ou uns refrãos poderiam facilmente ter sido inspirados na minha terra natal?
 
“Quem é dono desse beco?
Quem é dono dessa rua?
De quem é esse edifício?
De quem é esse lugar?”
 
São as mesmas perguntas que me faço, andando pelas ruas da cidade.
 
Intrigante como tem gente em Maragogi pensando que é dono da coisa pública. Que não existem mais leis, mais regras. Acabou tudo. “Agora quem manda somos nós.” Parecem pensar assim. “Se mexer comigo, faço política contra. Voto em fulano, que sempre deixou a gente fazer o que bem quis.” E agora, como dizer a essas pessoas que elas estão erradas? Que a gente manda na nossa casa. Que a coisa pública é comandada pelo Poder Público.
 
“Purgatório da beleza e do caos
Do melhor e do pior do Brasil”

Em recente ação da prefeitura, visando o ordenamento da nossa orla marítima, foram constatadas práticas absurdas. Calçadas são feitas para os pedestres andarem. Não para fincarem imensos jarros. Não para instalarem todo tipo de barraca (se a intenção é dá um aspecto de favela ao nosso maior cartão postal, parabéns, vocês conseguiram). Cavaletes – e outro qualquer objeto – são usados para demarcar e privatizar estacionamentos em vias públicas. Lanchas são colocadas em espaços escolhidos livremente por seus proprietários.
 
Nos últimos anos, tomamos conhecimento, perplexos e indignados, de permissões verbais para invasões de becos, construções irregulares. Todo mundo virou dono de um espaço que decidiu tomar para si. Todo mundo é dono daquilo que adquiriu ilegalmente e não mais admite devolvê-lo ao poder público – o que é público.
 
“O Rio é uma cidade de cidades misturadas
O Rio é uma cidade de cidades camufladas
Com governos misturados, camuflados, paralelos
Sorrateiros ocultando comandos”

A Av. Sen. Rui Palmeira é nosso cartão de visitas para o turista que vem nos visitar. Mas, se ainda não perceberam, há tempos exibe visíveis sinais de decadência. E hoje está doente, precisando urgente de tratamento. Além de problemas antigos que se tornaram crônicos, novos impasses surgem a cada dia, e parece uma coisa sem solução. Uma bola de neve que vai em direção ao inferno.  
 
“Favelada, suburbana, classe média marginal”
 
No dia seguinte à ação, presencio e escuto “os revoltados” apontarem o erro do vizinho, para justificar os seus erros. Que tal se, ao invés de seguirmos o erro dos outros, os denunciássemos aos órgãos competentes, para vivermos numa cidade melhor? Mas não: ao contrário, o erro alheio é um incentivo para fazermos o que planejávamos e não tínhamos coragem. “Já que o vizinho fez e ficou por isso mesmo, vou fazer também.” E é concretizando esse pensamento que vejo Maragogi se transformar em uma pequena cidade caótica.
 
“Comando de comando submundo oficial
Comando de comando submundo classe média
Comando de comando submundo camelô”

Em rede social, o funcionário público Sebastião Ramos escreveu que “é um caso antropológico, cultural, moral e ético, esse de assumir a posse alheia (vide a história da riqueza do homem). Incompreensível são a permissão e a acomodação política. Dos gestores? Sociedade? Ao longo dos anos, no trato/gestão da coisa pública. Que deveria estar acima do bem individual e familiar. Seria o egoísmo prevalecente e incutido na colonização? Seria interessante rever benefícios ilegais. Também o diálogo com os envolvidos faz parte da democracia.”
 
“É meu esse lugar
Quero meu crachá.”
 
Quando o crachá, no caso, é o título de eleitor.
 
(Errado não sou eu, que aponto o erro. Errado é você, que pratica o erro.)
 

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