O corona e as borboletas

É necessário o medo da morte, ou a própria morte, para que sejamos espiritualmente renovados?



Saio da quarentena e vou até a praia, apenas para ver o mar. Vejo o mar todos os dias. É uma necessidade. Não é difícil, só atravessar uma rua. Contemplo o mar de um lado a outro, o azul infinito, respiro fundo e retorno. Nos outros dias, por se tratar de uma cidade turística, sempre havia bastante gente. Caminhando, tomando sol, mergulhando. Bares abertos, carros circulando pela avenida, guias abordando os turistas para vender passeios. Turistas passeando em cima dos bugres, ou formando filas para subirem no catamarã e visitarem às piscinas naturais. É um movimento ininterrupto.

Mas, a festa acabou. Pelo menos temporariamente. 

Hoje é diferente. Dirijo a vista ao mar. Os barcos, lanchas e catamarãs estão ancorados. Olho pro norte, pro sul. Meia dúzia de gente na praia. Bares e restaurantes fechados. Cadeiras recolhidas. Ausência absoluta de maiores movimentos. Poucos veículos circulando, raros estacionados ao longo da avenida, até onde minha vista alcança. Dois ou três em pousadas. É um cenário triste, desolador. Um cenário de guerra, apocalíptico. E, como em todas as guerras, há um toque de recolher.

Nessa guerra, o inimigo é invisível, mas é real – e mata igualmente. 

Há um recado no uivo do vento. Um silêncio tenebroso nas entranhas da natureza. O prenúncio de que algo devastador está chegando na cidade. Pressinto que sou vigiado por olhos virulentos. Os olhos do corpo de massa gosmenta está vindo, está chegando. Feito uma onda gigante, um tsunami silencioso. E já está próximo. Sim, eu sequer o vislumbro, mas já posso senti-lo. Ele virá. Não sei ainda em quais proporções nem tenho conhecimento das consequências.
 
A onda turva é trazida pelo vento.

Por um momento, não consigo me mexer. Petrificado, eu fico. Prendo a respiração, para não ser visto nem sentido e para que o vento passe por mim e não me atinja. Não há outro mecanismo de defesa senão ficar quieto, parado, escondido. Fingindo de morto. Sei o quão o corpo é frágil diante da truculência da morte. E também sei o quão a morte é feia. Eu já a vi de muito perto. E o terror aumenta por saber que continuo totalmente desarmado para me proteger dela. Ela te leva quando quer. Não há escapatória.

É um filme-catástrofe, um pesadelo.

Consigo me restabelecer, me viro e corro me proteger entre as paredes, onde o vento bate, faz a curva e não me atinge. Na rua, por coincidência, há bandos de borboletas voando pela cidade. Borboletas amarelas. Lembro da minha infância. Havia um mês específico para elas atravessarem a cidade, durante dias seguidos. Acho que junho, talvez julho, não me recordo. E eu e os meninos, em rebanho, corríamos atrás para pegá-las.

A borboleta é considerada o símbolo da transformação, da beleza, da inconstância, da efemeridade da natureza e da renovação. Para os espíritas, ela simboliza a reencarnação. A reencarnação é o regresso da alma para outro corpo, uma nova vida. No cristianismo, a borboleta representa a ressurreição.

É necessário o medo da morte, ou a própria morte, para que sejamos espiritualmente renovados?
 

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