Posso mostrar minha arte?

Crônica sobre a vida dos meninos que pintam azulejo em Maragogi

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O céu da paisagem pintada nos quadrinhos de azulejo é azul acrílico. Os dedos do pequeno Samuel, de apenas 8 anos, são pretos. A água do mar é verdejante. Água no morro, onde alguns moram, não sobe todo dia. O primeiro sol faz a festa dos turistas. O segundo sol ilumina a cidade de sorriso de escárnio velado, esquenta o asfalto, queima os pés do menino e arranca o couro. Ele não tem um par de chinelos para perambular avenida afora, oferecendo sua arte. As cores da tinta óleo em pasta são fortes. Para expressar divinamente o cenário paradisíaco. Mas a embalagem da cidade não condiz com a bula. Se a caixa é bonita, a bula é mal escrita. Se a embalagem é falsa, a escrita é realista. 

Se há máscara na embalagem, não há máscaras para proteger Samuel, nem Leandro, nem Izak do que deveria: a inalação do cheiro forte da tinta e do verniz. O cheiro entorpece. O bagulho é doido.

A arte comercial, made in Caribe brasileiro, virou produto de exportação. Os pequenos artistas já viraram até – pasmem! – atração international. Mas se há transparência nas minúsculas telas que expressam e enaltecem as belezas naturais, há omissão da miséria social. O grito do dinheiro versus silêncio dos inocentes. Quem gosta de miséria é intelectual. Turista paga para se divertir e ser apresentado ao que é belo. Turista ama o belo. Os artistas mirins não podem pintar o lugar de onde vêm. Os casebres de barro, a lama na rua. Desde quando fome gera renda? Miséria não pode ser exposta, porque não é comércio.

No quadrinho, tem o nome do polo turístico. Mas não há assinatura do artista, nem a terra de onde vem. Onde o mar é a lama. A gaivota é o urubu. O rio são esgotos a céu aberto. O céu são palhas de coqueiro que fazem de coberta. Terra de pobre, preto e favelado. A maioria tem a cor de pele da minoria, mas há a cor da sociedade entre eles. Terra de ninguém, onde o sol é negro, a cor é negra, a morte é negra. Lugar de onde se pensa que só tem bandido. Que neguinho tem que apanhar mesmo, se quiser ser gente. Porrada na cara. Apanha na rua. Rasgam a roupa. Botam de cabeça para baixo, deixam nu, se for preciso. É preto, feio, maltrapilho, mora ali, carrega bolsinha nas costas? Só pode ser alma sebosa. Mulher? É tudo puta. Criança vai virar bandido.

Não há religião na descrença. Os homens de bem entram metendo bala a torto e a direito. Não importa em quem acerta. Tem que mostrar serviço, e serviço se mostra matando. A vida que não tem preço. Que não vale nada.

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