Mirelly Sanches

Miss Vaga-Lume



Exibe–se com certa fúria, certa vingança. Visceral, trágica, vulcânica. Orgânica, voraz, orgástica. Exposta ao vento, ao relento, à chuva. Assim olhando, de longe, figura imponente, adorno vanguardista das avenidas de outdoors luminosos, barbie virtual infiltrada na raça humana. Escultura viva. De perto, impotente, diante dos berros dos motoristas endiabrados e cruéis, das buzinas, das sirenes, à mercê dos assovios, dos insultos, do escárnio, dos tiros – a sonoplastia da sua vida, Gina Tributo da Noite.



Até parece!, exclamaria sarcasticamente algum conhecido se a visse agora, Gina Púrpura, descendo do táxi como quem desce da carruagem de abóbora. Só umas poses, cara, você retrucaria, jogo cênico, saca? – é bem a sua cara, o seu modo de aterrissar gloriosa na night



E os príncipes, Gina, os príncipes da sua história à noite abandonam as afetações, viram sádicos, masoquistas e congêneres, e extravasam toda espécie de tara, latentes e muito bem dissimuladas à claridade solar. E aí só querem suas curvas, seus contornos, seus recôncavos, sua boca, sua língua, seus orifícios. Rejeitam seus beijos, seu amor, seus sentimentos. Seu corpo e suas técnicas são mais do que suficientes para uns minutos de deleite. 



Valendo–se de poses ensaiadas, checadas e aprovadas perante o espelho grande do seu guarda–roupa, assume seu posto, já atraindo a atenção e/ou gula e/ou ira de rostos masculinos, jovens, tesudos, velhos, cansados, ávidos, clientes, inéditos. 



A noite, Srtª Pirilampo, com todos os seus feitiços e perigos, há muito deixou de ser criança e você não é nenhuma personagem de conto de fadas e seu hábitat natural nunca serviu de moldura para uma narrativa mágica.



Largada à própria sorte – como costuma dizer –, você ganha o calçadão, se reparando, puxando a sainha para baixo, ajeitando o top, tirando o espelhinho da bolsa, se olhando de perfil, de todos os ângulos, enfiando os dedos da mão esquerda por entre os cabelos, jogando–os para um lado e outro, guardando o espelho, colocando a bolsa no ombro direito, respirando fundo: prepara–se para desiludir os iludidos que passam pelo seu corpo sem deixar marcas – sentimentais, pelo menos (as físicas, não pode ocultar nem esquecer, e motiva sempre indagações indesejáveis, mas na primeira investida você logo corta, com seus foras ríspidos, amargos, debochados, singulares). 



Gina é pseudônimo usado nas batalhas mais sórdidas travadas na surdina das sombras. Mas você, Gina, tanto pode ser a Púrpura, o sobrenome que se deu, como a Gina Catártica dos Desejos Mais Arraigados e Profanos dos Caras Solitários e Carentes e Tementes Que Vagam Pela Avenida Depois da Meia–Noite, quando um vendaval escancara abruptamente as portas do castelo das bruxas e todas escapam, nas suas vassouras, berrando, enlouquecidas, sôfregas, quebrando os encantos, metamorfoseando os seres, instigando seus recalques. Esse é seu codinome mais verdadeiro, apesar dos tantos que lhe dão, todos aviltantes, imaculados, objetivando devastar, derrubar, matar. Porque para eles você não passa de uma bandida.



Porque você materializa os desejos mais recônditos dos caras.



Figura multicolorida destacando–se num fundo preto. Porque o pano ao fundo do seu palco é negro. Porque às vezes você olha em volta, não enxerga nada, e tateia nas trevas. Por isso esqueça o colorido – é só um disfarce, um atrativo. Por essa razão, e mais uma série de outras, você só poderia figurar num livro de Genet. Ser cria de Genet. Praticando o sexo doutrinado por Sade. 



Ah!, os homens, Gina Brega Romântica. Amou alguns, deu para vários. Aos que amou, deu sexo, carinho, casa, comida e roupa lavada. E apesar de atender às exigências contratuais deles, apesar da extensa lista, você continua sozinha: os caras que amou jamais a amaram – ou a amaram dentro de um limite. Porque você é uma garota de limites pré–estabelecidos. Porque você, quando não é paga para ser currada, foi feita para ser amada em segredo. 



Sim, porque você aprendeu a fazer suco das frutas mais ácidas. Aprendeu a saboreá–lo sem açúcar, até. A infelicidade agora é prazer, concordando com as palavras de Michelangelo Antonioni: feliz vivo com a infeliz sorte, e quem viver não sabe com angústia e morte, que entre no fogo, onde me queimo e me destruo. 





No centro conjetural da madrugada hostil. No âmago vazio do silêncio compacto. Mergulhada em surtos passionais, angústias existenciais, na lucidez assassina. À fímbria tênue do inferno asfaltado.





OK, Gina Mensageira de Versículos Bíblicos: foi–se a madrugada, sexo foi praticado à exaustão, a cidade continua intacta, você olhou para trás e – viva! – não virou estátua de sal.




Modelo:
Mirelly Sanches
Para evitar polemicazinha de gente de baixo nível intelectual, Mirelly não faz programa. Sua profissão é cabeleireira e trabalha no salão da irmã, Divas, situado à rua José Buarque Sapaio, em Maragogi.   

Fotógrafo:
Victor Santos

Texto:
Extraído do conto Miss Coruja, que integra o livro Vapor Barato (Ed. Sete Letras, RJ, 2007), de José Valdemar de Oliveira. 

Mais notícias

Comentários

Carregando

Assine nossa newsletter e
receba as principais notícias por e-mail

Siga o Maragogi News nas redes sociais