Pequena notícia de um livro e de seu autor

Vapor Barato, de José Valdemar de Oliveira


 

Uma verdade é que por razões de ofício (de leitor ou de escritor leitor) teríamos que ler todos os grandes livros que a humanidade produziu; pois assim dever ser, temos nós, os iniciados, testemunhar e assimilar a grandeza da tradição que sustenta todas as artes, inclusive, é lógico, a arte literária.

Teríamos que ler as grandes obras escritas sob a égide da civilização ocidental, sem esquecer que existe uma outra civilização, a levantina, a da estrela e da meia lua, imaginem! Mas o tempo não dá. Não se vive o suficiente para ler e maturar as grandes ficções, as grandes ideias, os grandes poemas, infelizmente.

Deveríamos nos submeter a um processo seletivo desde o início de nossas vidas no “por que ler? e o que se ler?” para que quando chegássemos aos cinquenta anos, já pudéssemos estar iniciando um outro ciclo leitor – o da releitura, o de nos submeter à possibilidade de uma segunda interpretação ou da ratificação interpretativa na qual só o grande escritor sobrevive de fato, de continuar viva sua obra aos olhos e cabeças de gerações futuras.

Apesar de justo e perfeito este mecanismo, seria, contudo cruel e utópico. Utópico por estabelecer um eterno e fechado ciclo de autores e obras com o universo de leitores e por congelar toda criação artística, se fosse assim real, seria de uma crueldade ímpar. Mas, talvez não sejamos só cruéis quando não lemos com bons olhos os nossos contemporâneos. Talvez, a falta de tempo.

Indo de encontro ao parco tempo de lermos o que nos interessa, pode-se recomendar o livro de contos “Vapor Barato”, do alagoano José Valdemar de Oliveira, editado pela Editora 7 Letras, Rio de Janeiro. É a estreia literária deste arredio ou enfant terrible filho da paradisíaca cidade de Maragogi, conhecidíssimo point turístico internacional do litoral nordestino brasileiro; que nos longos meses de inverno, é castigada pelas geladas brisas marinhas e pelos ventos terrais que assobiam a madrugada e a solidão que caminham juntas nas suas ruas estreitas e mal-iluminadas.

Filho de um lugar com duas faces e de sentimentos antagônicos e individualistas, o escritor situa a sua ficção longe de seu cenário nativo, dentro das noites de uma grande cidade como a do Recife; as noites subterrâneas que não dormem dentro de seus personagens – michês, prostitutas ou efebos e cortesãs de uma festa de alucinações e tristezas e de uma pontual solidão.

José Valdemar de Oliveira não malogra na construção do clima, da tensão, da ilusão. Podendo ser avaliado “Vapor Barato” como um grande momento na trajetória de seu autor e bem representando o panorama atual do conto brasileiro. Ficando qualquer outro rótulo ou sub-rótulo ou de pertencer a esse ou àquele grupo ou tribo, obsoleto, infundado, inviável. Leiam, o tempo é curto. 

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