Stoner

Um grande herói da mediocridade

William Stoner é um homem fictício, mas em Stoner, um romance que não vendeu mais de dois mil exemplares no ano de 1965, que decerto, a maioria foi vendida no campus da Universidade de Denver, onde seu autor, John Williams (1922-1994) foi professor de 1954 a 1985, se torna um indivíduo de carne e osso e desfilam os cinquenta anos de sua existência de nenhuma grande relevância no eixo da narrativa. Mas, antes procurarmos saber mais sobre William Stoner, é necessário se ater a figura de John Williams; quem foi o criador de Stoner? Texano nascido em uma pequena cidade do interior, a deflagração da segunda grande guerra o fez como tantos milhares de jovens norte-americanos a se alistarem. Ingressou na Força Aérea e serviu na China, na Índia e na Birmânia. Sobrevivendo ao conflito, retorna aos EUA, e retoma a vida civil. Em 1954 após se graduar em Denver, no Colorado e se pós-graduar no Missouri em literatura inglesa, inicia sua carreira de professor universitário que duraria mais de trinta anos. Talvez, a vida de John Williams tenha sido comum a todos os homens de sua geração que floresceu entre as grandes guerras, e, foi posta à prova na hecatombe da Segunda Grande Mundial. De fato, Williams foi um típico jovem de vinte anos que persuadido com o dedo em riste do Tio Sam, foi à desforra pelos compatriotas mortos em Pearl Harbor em 1941. Foi imbuído de patriotismo, romantismo que ele não furtou ao papel, que milhares de jovens iguais ele, de envergar a força mundial de destruir o nazi-fascismo. Poupado da morte, ele volta para casa, ao seu país, e, se reintegra a sociedade civil para se tornar um professor universitário de Literatura Inglesa. E entre estudantes, aulas, leituras, correção de provas e alguns livros que compôs, viveu John Williams mais de trinta anos a sua vida privada, a de professor e a de escritor pouco conhecido para depois morrer.
 
Por que um romance como “Stoner” foi lido por poucos, esquecido por muitos, e relegado a um retorno aos olhos dos leitores, praticamente, cinquenta anos após sua primeira edição? Podemos especular das mais diversas maneiras. Talvez, o teor de “Stoner” não tenha mostrado os temperos ideais de sucesso editorial; pois, ainda se respirava, o público leitor o ar oxigenado da grande prosa de ficção americana que surgiu ao longo da primeira metade do século XX: Suave é a Noite e O Grande Gatsby de Scott Fitzgerald, Carolina e Uma Tragédia Americana de Theodore Dreiser,  Babbit e Main Street de Sinclair Lewis, As Vinhas da Ira de John Steinbeck, A Estrada do Tabaco de Erskine Caldwell, a trilogia USA de John dos Passos, Luz em Agosto, O Som e a Fúria de Wiliam Faulkner, Adeus às Armas, Por Quem os Sinos Dobram e O Velho e o Mar de Ernest Hemingway; bastam estes títulos e seus autores invocados em um grande argumento – não se poderia produzir algo tão antológico e notável por uma geração seguinte à grande geração de ouro.
 
Após uma grande fartura é quase certo um período de escassez, possa soar esta frase como um sofisma barato, mas o que houve de fato, foi uma fase de poucos grandes temas, de pobreza numeral em grandes textos, em inusitados enredos. Até mesmo os grandes romancistas americanos, em sua grande maioria não publicaram grandes títulos que bulisse com o juízo da crítica nem com os dividendos das grandes editoras.  A moda que se lia, havia antes trazido grande rejeição das camadas conservadoras (as mais numerosas da população americana) a produção carregada de um chulo coloquial homoerótico da Geração Beat arrepiava os cabelos das massas macarthistas paranoicas do iminente perigo comunista na América, se transformaria no grande cânone anti-acadêmico americano, por mais estranho que se possa assim dizer, constituído por Howl (1956) de Allen Ginsberg, Naked Lunch (1959) de William S. Burroughs e On the road (1957) de Jack Kerouac. Fora deste contexto, Saul Bellow, o judeu russo canadense, já oferecia ao público americano duas obras significativas As Aventuras de Augie March (1953) e Henderson, o rei da chuva (1959), o Nobel de Literatura de 1976 prometia o grande texto novelístico renovado, tentando ressuscitar a verve dos grandes mestres; ou Philip Roth, judeu americano, que estrearia em 1959 com Adeus, Columbus, que seria no decorrer das décadas futuras o fazedor de uma obra imponente que lhe coloca como o maior escritor vivo norte-americano. É logo a seguir a estas publicações que surge Stoner. William Stoner nasceu em 1910, talvez alter ego de John Williams, foi nascido filho único de um modesto casal de lavradores dos campos de milho e algodão na grande planície central do Missouri. Eram três: o pai, a mãe e ele. Ele quando não está na escola rural, está com os pais, ajudando-os no trato com os animais da granja ou campos semeados. Apesar das duas primeiras gerações dos Stoner terem dedicado a vida inteira àquela terra, William não tinha intenção de ficar ali para sempre, dando continuidade ao ciclo familiar. Ele descobre como romper este ciclo – uma universidade não tão longe de casa. O governo dá bolsas a aqueles jovens de pequenos latifúndios para cursarem Ciências Agrárias. Os pais se convencem em deixá-lo ir. Ficarão sem um par de braços no trabalho, mas, em compensação, a propriedade poderá no futuro ter um responsável graduado na demanda agrícola. A partir daí, sua vida se desenvolverá entremuros de um meio acadêmico. Conhecerá um professor que lhe ridiculizará por seus jeitos interioranos, mas depois, depois de descobrir que seu aluno tem dotes intelectuais significativos, conduzirá sua formação, levando-o para o campo da linguística e da literatura, bem longe dos propósitos iniciais de Stoner. Conhecerá amigos eternos.  Apaixonar-se-á por uma jovem bela e instigante mulher que será sua mulher e mãe de sua única filha. Sofrerá revezes em seus projetos felizes; as relações conjugais se deterioram; a vida acadêmica de altos e baixos na universidade que foi aluno e é professor assistente de literatura sofre os confrontos de alunos e colegas de magistério. Próximo do final da vida assalta-lhe uma paixão por uma mulher do meio universitário; parece ser uma trégua ao seu tédio e desencantamento, mas dura pouco. A morte assim lhe concede a liberdade de um corpo precocemente arruinado aos quarenta e seis anos.
 
Sem rasgos de genialidade, sem gestos largos de heroísmo, mais clandestino de sua distinta e mediana vida, William Stoner, publicamente, se satisfez com sua trajetória. Creditava na sua grande sorte em ter deixado os campos de milho e algodão de seus pais para nunca mais voltar, e, se tornar um professor de literatura inglesa, em se tornar um estudioso de Chaucer e ter sido alguém em seu particular mundo. Este livro, Stoner, publicado pela primeira vez no Brasil, não pode apagar os quarenta anos que ficou longe dos olhos daqueles que teriam merecido lê-lo no original e em outros idiomas; mas, agora lido, ele honra a história dos homens comuns.

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