Nada pode ser esquecido

Reflexão sobre nosso tempo



Nada pode ser esquecido. 2016 foi um ano de sentimentos coletivos em nossa aldeia, em nosso país e no mundo. Grandes transformações se arquitetam para os anos futuros a partir do que aconteceu neste ano. É uma gigantesca onda, um tsunami, envolveu os credos, as esperanças, os dogmas, os valores fundamentais da humanidade, o que aprendemos desde o colo de nossas mães, o que decoramos nos catecismos e assimilamos quando amadurecidos.
 
À concepção do pensamento científico, antropológico e social, nosso presente está repleto de pródromos, mais do que presságios que qualifica nosso futuro como planeta, habitat de civilizações, um futuro sombrio ou, pelo menos, seguro ao advento de novas gerações humanas. Sim, por que negar, o que Claude Lévi-Strauss (1908-2009), antropólogo belga, vaticinou em seus últimos anos de vida que a humanidade não sobreviveria às outras espécies terrestres, enfim, quando do fim do planeta, ele já estaria despovoado por milhares de anos de homens. Não se esquecer o que Stephen Hawking (1942-) falou neste 2016 que a humanidade terá que se apressar, investindo em um monumental projeto de êxodo interplanetário para salvar a espécie humana, viabilizar sua continuidade em outros planetas, pois o fim está próximo.
 
A Terra, no entanto, está persistindo,  mesmo esboçando suas fraquezas geológicas, servindo-se de cenário para o início de uma terceira guerra mundial, pois o que se joga de bombas russas em cidades sírias é de uma quantidade incalculável, Aleppo é a novíssima Guernica; uma cidadela semimorta sem Pablo Picasso; a Confederação Russa bombardeia todo o Iraque, toda a Síria motivada pela destruição do Estado Islâmico, podendo os russos de Putin se passarem como os mocinhos da fita, mas não é bem assim. Putin, misto de velho agente da KGB e de um saudosista tzarista, não esconde o desejo de ressuscitar a Grande Rússia dos Romanov e fazê-la maior do que foi, se permite interferir nas eleições americanas com os seus hackers obedientes a espionar o centro de inteligência do comitê de campanha de Hilary Clinton, beneficiando o louro brucutu Donald Trump.
 
São efeitos inexplicáveis de quando a massa pensa, principalmente, a massa norte-americana, tornando inúteis os oito anos da social administração Obama. Muitos morreram também nas águas do Mediterrâneo, as baixas da enorme migração de líbios, curdos, sírios, iraquianos, afegãos foram assinaladas pelos corpos afogados encalhados nas praias turcas. A Europa de altos e baixos econômicos, submete-se a invasão de refugiados mulçumanos ao mesmo tempo que sangra nos atentados impetrados por radicais islamitas. A multidão que invade o velho mundo não é o retorno de uma civilização que se situou por tanto tempo (711-1492) na Europa, mas, sim, reflexos do medo, da fome, da barbárie que os povos do Levante em pleno século XXI estão sendo vitimados a uma segunda idade média manipulada por um clero ansioso por formar estados teocráticos.
 
A pior sombra de Deus que ergueu fogueiras, engendrou tribunais, tentou dilapidar a inteligência com a tradição das superstições no Ocidente, e, homens como Averróis (1126-1198), mulçumano, médico, filósofo que manteve uma luz acesa na imensa escuridão da noite europeia, não evitando de pensar. Mas, hoje a escuridão emana do oriente para o ocidente, mas não se dissipa, pelo contrário, permanece densa promovendo dias de penumbra, dias inconclusos, dias sem certezas em uma economia mundial até o limite globalizada, mas que não consegue resolver os ancestrais problemas de desigualdade, opressão e intolerância.
 
Se a interpretação de Karl Marx, apesar de profunda, foi, mesmo assim, apressada???!!!!, se o materialismo histórico como método de análise do desenrolar da história da humanidade, absorvido pelo pensamento do antropólogo americano Lewis Henry Morgan, foi equivocadamente compreendido por Max Weber; ou se nada adianta gastar longas vidas burilando grandes sistemas de pensamento social, histórico e econômico, pois os instrumentos humanos vestidos por líderes  nacionais, salvadores da pátria, são enfim ou parecem ser incompetentes ou, então, nenhuma filosofia sobrevive às práticas diárias.
 
2016 foi o ano de grandes gestos e de grandes desilusões. O Papa Francisco, primeiro a se nomear com o nome do mais cristão santo, Francisco de Assis, perigosamente, derruba dogmas, institui a simplicidade e critica de modo duro e franco, a reacionária Cúria Romana. Os homens do poder são quase todos criminosos, presos por suas reptícias caudas. Os heróis da esquerda brasileira não são mais dignos presos políticos, são ladrões consumindo suas solidões em restritos espaços geométricos, perfeitos em suas arestas que quase não se repousa sombras. Nem sombras restaram aos heróis!
 
A violência entre as grandes facções do crime organizado nacional decapita cabeças e arranca corações de forma organizada e denuncia a fraqueza do Estado e talvez, ponha em risco a eficiência da democracia no findar do ano passado e no início deste 2017.
 
Tudo anda mal, tudo parece sem conserto, não mais tantas ilusões e ideários a serem seguidos pelos jovens; por sinal, como é da natureza dos jovens, tendem sempre a serem oposição, transgressão, questionamento; assim, nem tudo se perderá, indefinidamente, os homens de meia-idade necessitam ser no passado, livres e idealistas, e serão por todas as gerações. Nada pode ser esquecido, pois nossos netos, agora, ainda brincam em um jardim.

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